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Eu vou indo

Porque alguém tem de ser o primeiro a explorar, ver ou partir para se poder chegar, conhecer ou usufruir. Eu vou indo...

Eu vou indo

Porque alguém tem de ser o primeiro a explorar, ver ou partir para se poder chegar, conhecer ou usufruir. Eu vou indo...

Uma verdade... conveniente

Está cientificamente comprovado que um dos traços distintivos que nos marcam enquanto portugueses é a falta de amor próprio e, consequentemente, o pouco valor que atribuímos, em geral, ao nosso país. Quando uma voz se tenta demarcar e proferir um elogio (não vendo mais do que aquilo que é claro), logo se levanta um coro de impropérios, empurrando aquela "pobre" voz dissonante para o conhecido coro do "coitadismo lusitano".

Ora, os tempos mais recentes têm desmentido esta ideia enraizada até à mais profunda víscera, verificando-se o reconhecimentos da qualidade ímpar de Portugal e, por isso mesmo, a sua escolha como destino turístico de eleição pelos mais variados povos do mundo. Mas, mesmo assim, os ecos do Velho do Restelo continuam a zunir.

Paralelamente a esta ideia, é também apanágio português valorizar tudo o que é estrangeiro, apeHarry Mitsidis.jpgnas e só por isso mesmo: por ser estrangeiro. Contudo, se se juntarem estas duas ideias aparentemente contraditórias, obtemos uma verdade incomensurável: um elogio de um estrangeiro ao que é português faz com que passe a ser uma verdade indesmentível. Uma verdade até mesmo para o mais pessimista dos portugueses.

A verdade chegou pela boca de Harry Mitsidis, uma das pessoas mais viajadas do planeta (conhece todos os 193 países que compõem as Nações Unidas), e que visita o nosso país, este fim de semana, para dar uma palestra sobre viagens. Nas suas palavras, de todos os países que visitou, nas suas inúmeras viagens, o seu país preferido é... Portugal. Sim, PORTUGAL, o nosso Portugal. Razões para isso? Muitas e algumas delas bem visíveis a qualquer português.

Mas, mais palavras para quê? O melhor é ler as sábias palavras em discurso direto numa entrevista da jornalista Bárbara Baldaia, da TSF.

 

Que país mais o surpreendeu?

Creio que é difícil escolher um. Um dos que tive mais choque cultural foi Taiwan, talvez porque o tenha visitado relativamente cedo e achei que tinha muita gente em pouco espaço, a andar muito depressa. Fiquei surpreendido e um bocado chocado.

Muitos países surpreenderam-me pela simpatia das pessoas. Nessa categoria, o que me surpreendeu mais foi o Irão. Tinha uma imagem relativamente negativa sobre o Irão e quando fui lá tive uma experiência fantástica, porque as pessoas são provavelmente as mais atenciosas do mundo. Foi uma boa surpresa.

Há algum traço em comum com todos os povos?

Penso que queremos todos o mesmo. Independentemente das nossas origens, só queremos ser felizes e, no fundo, a maneira de sermos felizes é a mesma para a maioria de nós. A maneira como o exprimimos é que provavelmente é diferente, por causa das diferenças culturais. Definitivamente, é essa humanidade que nos liga e é por isso que sempre me senti muito ligado aos sítios onde fui. Mesmo a conversar com um condutor de táxi no Gana, consegui comunicar e isso é lindo. Porque é aí que percebe que pode falar com qualquer pessoa.

Qual foi o povo mais feliz que conheceu?

Isto vai soar como um cliché, mas os mais pobres tendem a ser mais felizes. Os asiáticos do Vietname e de Laos são muito calmos, com aquela filosofia de vida que lhes permite estar acima dos outros e essa serenidade, para mim, é uma expressão de felicidade. Eles parecem muito felizes.

Alguns dos países latinos parecem ser felizes duma maneira mais ruidosa. Especialmente na América Latina, tive a sensação de que as pessoas são mais relaxadas, de certa maneira.

Já sentiu medo em viagem?

Obviamente, quando fui para zonas de perigo - e inevitavelmente eu fiz isso - sim, senti muito medo. Tive muito medo em Mogadíscio, capital da Somália, que está completamente destruída. Fui lá há cinco anos, quando o Al Shabaab abandonou a cidade, e eu fui o primeiro "turista" a ver a cidade e fiquei com muito medo. Tinha sete guarda-costas com kalashnikovs e andava com um colete à prova de balas, mas uma pessoa sente o receio de que algo possa acontecer...

Uma vez fui preso no Iémen, estive na cadeia durante uma noite e isso também foi muito assustador, por causa da incerteza do que me poderia acontecer. Podia desaparecer e ninguém ia saber...

No geral, não sou movido pelo medo e consigo ultrapassá-lo.

Porque foi preso no Iémen?

Foi há 3 anos... só me posso culpar a mim próprio, porque entrei no país ilegalmente. Não tinha visto, sabia que era impossível conseguir um visto e então arrisquei e fui, mas a polícia apanhou-me. De certa forma, merecia ser apanhado... mas fiquei com medo.

E esteve numa cadeia verdadeira?

Sim... Bem, estive numa cela na esquadra da polícia. Imagina como são as esquadras do Iémen. Não tem nada a ver com as de Portugal. São muito primitivas e nada higiénicas. E era escura e havia baratas e mosquitos... Era má.

Nunca mais vai esquecer essa experiência...

Não, não... Hoje em dia é uma boa história, até com piada. Mas na altura tive muito medo e o mecanismo para tentar reagir a isso foi ir buscar memórias felizes de pessoas que amo, dos meus pais... Tentei fazer tudo o que pude para me sentir mais positivo e não parecer muito desesperado.

Qual foi a lição mais importante que aprendeu ao viajar?

Penso que se relaciona com o que me perguntou sobre o medo.

Na verdade, não há nenhum motivo para ter medo, porque as pessoas, no geral, são muito simpáticas.

No dia a dia, especialmente para quem vive na cidade, as pessoas acabam a odiar-se umas às outras, porque a vida é muito rápida, é uma batalha pela sobrevivência.

Durante as viagens, 99% das vezes estive exposto apenas à simpatia, e essa é a maior lição. Isso foi muito importante para mim.

Eu sempre tentei espalhar essa mensagem positiva e por isso é que estou no Porto para tentar passar essa mensagem, de forma a que sejamos pessoas melhores.

Escreveu a certa altura que "a maioria das pessoas são medíocres". Porque diz isso?

Creio que a maioria das pessoas se comprometem com a realidade na qual estão inseridas. A maioria não se pergunta a si própria questões como: porque estou aqui? porque estou a viver da forma como vivo? porque fiz as escolhas que fiz?

A maioria acomoda-se a um tipo de vida que parece pré-determinado ou predestinado e parece que passam pela vida a dormir.

Talvez esteja a ser um pouco duro... Mas isso era o que queria dizer com o "medíocre". A maioria das pessoas não se examina e não de desafia a sair da sua zona de conforto ou da sua realidade de forma a melhorarem.

E como podiam fazer isso?

Sinto que as pessoas precisam de encontrar a sua própria forma de o fazer. Viajar é apenas uma maneira.

As pessoas devem procurar ser mais conscienciosas sobre as suas próprias decisões e sobre as razões para viverem como vivem em vez de fazerem apenas o que a geração anterior fez ou o que os pais acharam que seria uma boa ideia. Acho que a maioria das pessoas vive globalmente.

E o que me diz de Portugal? Gosta?

Portugal é um país fantástico. E acho que o que o faz fantástico é que as pessoas não se apercebem que ele é tão fantástico. O melhor de Portugal são as pessoas.

Em todos os lados do país onde estive, só encontrei simpatia, sorrisos de estranhos.

Ontem, estava a passear em Óbidos e uma velhinha estava à janela e eu estava com um amigo e olhei para ela e ela estava a sorrir e nós continuamos a caminhar e depois olhámos para trás e ela continuava a sorrir. Essa boa energia das pessoas... De todas as vezes que estive em Portugal encontrei isso.

Mas isso certamente também existe noutros países...

Não! Na realidade, isso não acontece. Sobretudo não acontece na Europa. Talvez aconteça num país exótico, onde o próprio europeu seja um foco de interesse, mas eu acho que na Europa não acontece muito.

Os europeus andam na sua própria vida, não são tão abertos. Eu gosto da maneira como os portugueses olham para a vida, porque são abertos mas, ao mesmo tempo, tranquilos.

No outro dia fui a Espanha e a primeira coisa que reparei foi em como falam todos tão alto! E isso faz a diferença, porque em Portugal é o oposto.

Eu gosto disso e, claro, Portugal tem uma cultural muito forte e única em termos de arquitetura, como as pequenas cidades são construídas. Embora seja um país relativamente moderno, preserva essa cultura regional.

Não encontra muitos países que tenham tido sucesso a manter esse nível regional e moderno em simultâneo. Portugal fez isso muito bem.

E também tem bom tempo..

Tem mar, montanhas, bom tempo, que mais podemos querer? E ainda tem comida fantástica.

Está no seu Top 10?

Está mais do que no top 10, mas prefiro não dizer, porque não iria acreditar em mim.

Porquê?

Na verdade, Portugal é o meu país preferido, mas vai achar que eu estou a dizer isso só porque estou aqui.

Mas se for ver a minha página no Facebook em que falo de todos os países do mundo, mostro também o meu ranking e Portugal está em número 1.

 Harry Mitsidis entrevistado por Barbara Baldaia, www.tsf.pt